Eu me cobro demais?

"O preguiçoso sempre acha que está trabalhando demais."


Bong Joon-Ho e algumas de suas estatuetas.

Essa é uma frase clássica do Victor, um amigo gênio, que tive a honra de ter por perto enquanto morava em Fortaleza, estudando Moda. Ele falava isso geralmente quando eu estava queixosa, achando que possivelmente não era normal o quanto eu me cobrava excelência. Olhando agora, com mais de uma década de distância (Uau!), eu vejo que ele estava redondamente CORRETO. Eu empurrava a faculdade com a barriga, entre uma festa e outra. Como podia passar pela minha cabeça que eu estava me cobrando demais? Era uma piada.


Agora, 15 anos depois, estou começando um tratamento com um novo psiquiatra que, aliás, estou adorando. Até agora foram poucas sessões, estamos naquela fase em que ele tem as primeiras impressões de mim. Mas parece que de uma coisa ele já está certo: eu me cobro demais. Eu preciso ser mais generosa comigo, eu preciso me acolher mais. É claro que eu não sou mais aquela jovem saída de uma adolescência complicada, curtindo a vida adoidado. Agora tenho responsabilidades que amo, tento ser organizada e ter quase, digamos, um padrão de excelência... Mas não é para tanto! Tento me exercitar regularmente (já que meu corpo não vai ficar saudável sozinho), ler o máximo que eu conseguir por dia, etc. Mas daí dizer que eu me cobro demais é um tremendo exagero.


O que eu respondi quando ele me disse isso foi: Dr., eu tenho uma quantia de coisas que preciso fazer para manter minha vida funcionando de forma eficiente e eu faço aproximadamente 10% delas. Com isso eu tava querendo demonstrar como minha eficiência é baixa. Provavelmente ele entendeu que eu me cobro demais. Fico pensando no Bong Joon-Ho e suas estatuetas do Oscar... Será que o psiquiatra dele fala que ele se cobra demais?


Depois pensei bem, o que o médico provavelmente quis dizer não foi que eu produzo muito, mas que eu fico muito tensa com qualquer coisa que eu precise fazer. Como uma boa neurótica-obsessiva, estou sempre com a culpa atada sobre as minhas costas. Faz sentido... Vomitei esses dias, senti um aperto no peito. Sempre julgava que era uma baboseira quando alguém escrevia sobre "ansiedade isso", "ansiedade aquilo"... Até sentir o baque em minha pele, ou melhor dizendo: meu estômago. De forma que agora estou tentando respirar mais — apenas observar minha respiração — e tentando lembrar, sempre que possível, que eu não sou o Bong Joon-Ho.



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